domingo, 1 de julho de 2012

Cruz do Diogo




Os crimes que abalaram São Paulo, Dioguinho (matéria da Revista Já de 20/04/1997)

  Na Segunda metade do século passado, o interior de São Paulo nada ficou a dever, em termos de violência, ao Velho Oeste americano. Se nos EUA bandidos como Jesse James e Billy The Kid se transformavam em lenda, em cidades paulistas como Cravinhos, São Simão, Tatuí, Altinópolis, Jaboticabal eRibeirão Preto a simples menção do nome de Dioguinho era sufiente para provocar calafrios nos moradores. Pudera: de 1892 a 1897, o ex-ajudante de agrimensor e ex-oficial de Justiça Diogo da Rocha Figueira matou entre 50 a 100 pessoas. De quebra, costumava mutilar os corpos e atirá-los em rios, ou retirar a pele do rosto, para dificultar a identificação. Místico, Dioguinho trazia sempre consigo um rosário formado por orelhas arrancadas de suas vítimas, que usava para rezar, todas as noites, as orações de um livro intitulado Horas Marianas. Tudo isso para permanecer com o corpo fechado. Crendices à parte, o fato é que fazendeiros e autoridades locais lhe davam uma proteção bem mais eficaz, garantindo total cobertura em troca da execução de seus desafetos.

                                                    Material didático explicando a história do Diogo. Ilustração de Paulo Sérgio Maroti (Teó).

  A carreira de dioguinho como pistoleiro de aluguel começou em 1892, mas o seu passado de crimes começou dez anos antes. Aos 18 anos, quando era ajudante de agrimensor em São Simão, o facínora cometeu seu primeiro crime. Um dia, ao chegar do trabalho, encontrou Joãozinho, seu irmão mais novo, chorando. Perguntou-lhe o que havia acontecido. O garoto, que anos depois passou a ser companheiro de Dioguinho no crime, contou que o pai deles, Avelino da Silva Rocha, um português severo, tinha lhe pedido para devolver algumas entradas, que ganhara do gerente do circo, pois não desejava ir ao espetáculo, nem permitiria que sua família fosse. Quando Joãozinho chegou lá, o homem disse que não aceitava mais a devolução e exigiu ainda que o garoto pagasse pelos bilhetes. Como Joãozinho não concordou, levou um tapa na cara. Ao saber disso, imediatamente Dioguinho foi acertar as contas com o gerente, carregando o menino. Ao chegar lá, o homem confirmou o que fizera, dizendo que o garoto era malcriado. Dioguinho não perdeu tempo: pegou o chicote que levara consigo e açoitou o homem. Este tentou pegar uma arma. Não teve tempo. Dioguinho, então, fincou-lhe um faca na barriga, matando-o na hora. Apesar de Ter sido processado, a justiça aceitou a justificativa de legítima defesa. Dioguinho ficou livre. Nosegundo crime, o bandido também quis fazer justiça com as próprias mãos. O pivô da história foi uma sobrinha, que Dioguinho encontrou chorando. Perguntou-lhe o que havia acontecido. Ela lhe disse que era apaixonada por um rapaz, mas este, depois de tê-la seduzido, não queria mais casar e sumira. Ao ouvir a história, Dioguinho falou para sua mãe que teria de se ausentar por alguns dias e foi atrás do moço. O sedutor tinha se refugiado em uma cidade vizinha a São Simão. Chegando lá, Dioguinho resolveu esperá-lo em um bar movimentado da cidade. Não tardou muito, o rapaz apareceu e logo reconheceu Diogo. O bandido inventou uma desculpa para estar na cidade. Convidou o moço para tomar alguns copos de cerveja. Passado algum tempo, Dioguinho contou uma história sobre uma moça, disse estar apaixonado e querer se casar. O rapaz já meio bêbado foi se abrindo. Falou mal das mulheres. Disse que elas queriam se casar só para Ter um trouxa que as sustentasse e que ele era esperto o bastante para não entrar nessa. Ficou tarde e o moço decidiu ir embora. Dioguinho resolveu acompanhá-lo. No caminho, catou uma acha de lenha. A rua estava deserta. Em dado memento, o bandido pegou o rapaz pelo colarinho e lhe disse: “Quer dizer que nenhuma mulher presta? São todas assanhadas ? Mesmo aquela que você desgraçou e abandonou, não é? Pois, então, toma! Enquanto falava, foi desferindo sucessivos golpes no rapaz com a lenha. O moço nem teve tempo de gritar. Caiu morto. Dioguinho deu mais cinco pancadas e esfacelou-lhe a cabeça. Montou em seu cavalo e foi embora. O terceiro dos muitos crimes de Dioguinho foi cometido por um motivo frívolo. Extremamente vaidoso, ele comprara, na Loja do Salim, uma palheta, chapéu que era a última moda em São Paulo. Resolveu estreá-lo num baile e fez o maior sucesso. Orgulhoso, Dioguinho foi dançar, deixando o curioso chapéu sobre uma cadeira. Distraído, um desconhecido não se deu conta e sentou-se sobre a palheta. Em um segundo, o bandido abandonou seu par e investiu para cima do moço. Sem pestanejar, com um só golpe cravou-lhe a faca no peito até o cabo. Por esse crime, chegou a responder processo, mas também não foi condenado, como ocorrera em seu segundo assassinato. 
  O profissional – Dioguinho virou assassino profissional quando já tinha mais de 27 anos. Na época, trabalhava em Jaboticabal, medindo terras. Um dia, saiu com um colono para caçar perdizes. Houve uma divergência sobre uma ave que acabara de ser morta. Os dois tinham atirado ao mesmo tempo. Começou a discussão. O colono ofendeu a família de Dioguinho. Sentindo-se humilhado, o bandido atirou no homem. Depois, largou a vida de agrimensor e foi morar no mato. Foi também denunciado por este crime, mas não conseguiram capturá-lo. A partir daí, iniciaram-se as façanhas do bandido. Vivendo sempre acompanhado de capangas, entre eles seu irmão caçula, João Dabney e Silva, Dioguinho passou a contar com a proteção de fazendeiros e autoridades da região, que conhecera em seus tempos de oficial de justiça e agrimensor. Não se sabe ao certo como eram feitas as negociações, mas o fato é que ele chegava a cobrar até cinco contos de réis por crime. Um dos clientes habituais do pistoleiro era Cândido Cyrino de Oliveira, dono da Fazenda Flores, em Cravinhos. Uma vez, o fazendeiro contratou um professor para dar aulas à sua filha Henriqueta. Custódio, um jovem mulato, foi morar na casa da fazenda e não demorou muito para se apaixonar pela moça, sendo correspondido. Sabendo disso o preconceituoso fazendeiro chamou Dioguinho para dar um fim na vida do rapaz, sem que ninguém percebesse que ele fora assassinado. Certa noite, Dioquinho, que costumava se hospedar na Fazenda Flores, foi até o quarto de Custódio e, armado de uma garrucha, obrigou-o a escrever um bilhete dizendo que se suicidara por causa do amor não correspondido da moça, Depois, disse ao rapaz para tomar veneno, caso não quisesse ter uma morte ainda mais dolorosa. Arrependido, o fazendeiro bateu à porta do quarto e tentou impedir o crime. Argumentou que só queria que Custódio levasse um susto e fosse embora. Dioguinho, que já havia executado sua missão, como prometido, saiu tranquilamente do quarto e disse: “Agora é tarde”, apontando para o morto. Como a fama de Dioguinho logo começou a crescer, de tempos em tempos armavam-se tocaias para pegá-lo. Mas esperteza era o que não faltava ao pistoleiro. Certa vez, Joaquim, um dos seus comparsas, foi a São Simão para comprar mantimentos e ouviu de um bêbado que estava sendo preparada uma emboscada para capturar Dioguinho e todo o seu bando. De volta, Joaquim relatou ao chefe o que ouvira na cidade. Dioguinho não perdeu tempo: pediu para que Joaquim o levasse até o tal homem. À noite, os dois já estavam de volta ao esconderijo com o pobre sujeito a tiracolo. O bêbado foi amarrado a uma árvore e aconselhado a contar tudo o que sabia. Como continuava mudo, Dioguinho pegou seu facão e foi arrancando o couro cabeludo do homem. Depois de Ter tirado um quadrado com aproximadamente 15 centímetros de lado, despejou cachaça no ferimento. O homem hurrou de dor e revelou o nome dos três que iriam tocaiar Dioguinho. Este, então, soltou-o e mandou-o embora. Quando tinha dado dez passos, a vítima foi morta com um tiro de carabina. Depois de arrancar a pele do rosto do homem, Dioguinho pediu a um de seus capangas que tirasse também as vísceras. Como ouviu um não como resposta, fez sua segunda vítima fatal naquela noite. Em seguida, foi até o local denunciado pelo infeliz. Lá, encontrou três caboclos. Antes que eles o vissem, disparou três tiros, matando a todos. 
  Cerco fechado – A Sorte de Dioguinho começou a mudar quando ele se meteu em um caso passional. Balbina Maria de Jesus tinha um caso com Marciliano Pereira Machado, conhecido por Marciliano Fogueteiro. Manuel Ferreira, apesar de casado, morria de ciúmes de Balbina e pediu para que Dioguinho resolvesse a questão. Um dia, Balbina foi visitar seus compadres em Cerrado, cidade próxima a São Simão. Assim que chegou, bateram na porta. Era Dioguinho. O bandido ordenou que a moça subisse no lombo de seu cavalo e fosse com ele. Ao chegar em um matagal, mandou que seu comparsas amarrassem Balbina em uma árvore e deu-lhe uma surra de chibata. Enquanto dizia que aquele era o castigo por ela ter traído Manuel. Quando já havia tirado bastante sangue da mulher, mandou que cortassem seu cabelo bem rente à cabeça. Depois, levou-a de volta à casa de seus parentes. E os ameaçou: “Se avisarem a Polícia, mato todos.” Logo depois, Dioguinho foi à casa de Manuel, onde contou, entre risos o que se sucedera. Restava, no entanto, pegar Marciliano. Mandou, então, um telegrama para o homem, como se fosse Balbina. No outro dia, Marciliano apareceu na cidade. Ao sair da estação de trem, Dioguinho e Joãozinho já estavam à sua espera. O bandido saiu caminhando atrás dele, pedindo que parasse para conversar. Marciliano virou-se e disse: “Não falo com gente da sua laia”, disparando dois tiros contra Dioguinho. O bandido e o irmão deram cinco tiros certeiros no homem. Apavorada, Balbina fugiu de São Simão e veio para Sâo Paulo. Procurou as autoridades e contou o que lhe acontecera, relatando tudo o que sabia sobre Dioguinho. As queixas que chegavam à capital contra o facínora cresciam a cada dia. Já se sabia que ele fora o responsavel pela morte de dois fazendeiros da região de São Simão, João Venêncio e José Batista de Souza Maia, pelo simples fato de terem proibido o respectivo genro e filho José Maia de manter amizade com o bandido. Capturar Dioguinho, virou, então, questão de honra para o governador do Estado, Manuel Ferraz de Campos Sales. Ele ordenou que Francisco Martiniano da costa Carvalho, chefe de polícia, tomasse providências. Costa Carvalho imediatamente designou para a missão Antônio de Godói Moreira e Costa, delegado auxiliar de Polícia. Acompanhado da Força Policial, comandada pelo coronel Pedro França Pinto, o delegado partiu para o Interior no encalço do criminoso.
  A primeira grande batalha foi vencida quando a Polícia conseguiu prender, na região de São Simão, um dos capangas do bando, Eliseu Prudente. Ele foi obrigado a mostrar os esconderijos de Dioguinho. Assim, os policiais baixaram em todos os acampamentos onde poderia estar escondido o facínora. Em um deles encontraram objetos pessoais, documentos e aproximadamente 48 cartas que incriminavam mais de 20 fazendeiros por darem cobertura ao bandido. Dessa forma, foram presos Cândido Cyrino de Oliveira, João Antônio Maciel e Mizael Gonçalves de Oliveira, além do juiz de paz de São Simão, Reginaldo Marques Gomes. Com a retaguarda do bandido completamente desarticulada e a ajuda de testemunhas, a Polícia descobriu, em abril de 1897 , que Dioguinho se encontrava escondido em uma propriedade de parentes, às margens do Rio Mogi-Guaçú, na divisa entre São Simão e São Carlos. A Polícia seguiu para lá e, depois de convencer o tal parente a colaborar, França Pinto ficou sabendo que Dioguinho e Joãozinho estavam abrigados em um rancho à margem do rio. Os dois irmãos dispunham de duas canoas para poder ir à margem oposta, se necessário. Os Policiais resolveram esperar o entardecer do dia 1º de maio de 1897 para atacar a dupla de criminosos. Deu certo: os dois irmãos embarcaram na canoa para ir à outra margem buscar mantimentos. Quando já estavam próximos ao local onde se escondia o coronel França Pinto, um dos soldados acidentalmente, talvez por nervosismo, manobrou o ferrolho do fuzil. Dioguinho, sempre atento, reconheceu a origem do barulho e disparou com sua carabina vários tiros em direção ao local de onde partira o ruído. O tiroteio começou. Os irmãos foram atingidos, caíram na água e afundaram. As últimas palavras que ouviram de Dioguinho foi “Nossa Senhora”. Em 5 de maio, o corpo de Joãozinho foi encontrado em adiantado estado de putrefação, O mesmo não aconteceu com o de Dioguinho, que nunca foi encontrado, alimentando assim a lenda de que ele não morrera. Mesmo assim, o dia 1º de maio ficou marcado como o dia do término da quadrilha que durante anos aterrorizou o interior de São Paulo. (colaborou Eugênio Marcondes Di Francesco).

SESSÃO DUPLA- A história de Dioguinho repercutiu no final do século passado por todo o Estado e continuou a atrair a curiosidade do povo durante muito tempo, a ponto de ser levada por duas vezes às telas. O primeiro filme sobre o pistoleiro, intitulado “As Aventuras de Dioguinho”, foi lançado em 1916, com direção de Andaló e Antonio Latari no papel principal. A versão mais comentada, entretanto, foi “Dioguinho”, de Carlos Coimbra. Baseado no livro homônimo do Delegado João Amoroso Neto, o filme, lançado no segundo semestre de 1957, foi um dos representantes mais ilustres do chamado Ciclo do Interior, iniciado em 1954, que inclui também produções como “Da Terra Nasce o Ódio” e “O Capanga”. Naquela época, os diretores estavam empenhados em criar um faroeste nacional, ambientado no interior. “Dioguinho” não fugiu a essa proposta. Mas teve boa direção e Hélio Souto, que viveu o bandido, em uma das suas melhores interpretações. De acordo com Helio, que está há 10 anos afastado da TV, as filmagens duraram 60 dias e foram feitas na Fazenda Guatapará, em Ribeirão Preto. John Herbert interpretou Joãozinho, o irmão do bandido. Mais recentemente, a EPTV Campinas em 1992 produziu um documentários chamado “Era uma vez Dioguinho”.




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